Visibilidade: transexuais ganham destaque na política

Publicado em 16/08/2018 19:25 - Atualizado há 1 mês

*Patrícia Rodrigues

A candidatura de transexuais em eleições tem ganhado cada vez mais visibilidade. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), o número de candidatos autodeclarados ‘trans’ passou de 31 em 2012 para 89 nas eleições de 2016.

Desse total, 11 pessoas foram eleitas para cargos em prefeitura, sendo seis em câmara de vereadores. Com orgulho em trazer ideias novas para o Progressistas, o partido elegeu três vereadoras em dois estados.

A abertura do partido em trazer diversidade e debater projetos vai de encontro com a criação do movimento Afro Progressistas, em 2015. Com uma das bandeiras em lutar contra todo e qualquer tipo de racismo, LGBTfobia e discriminação, o movimento tem como 1ª secretária a vereadora de Uberlândia (MG), Pâmela Volp.

Nascida em Tupaciguara (MG), um município com pouco mais de 25 mil habitantes, Pâmela Volp Rodrigues Cardoso foi a primeira vereadora transexual de Uberlândia (MG). De família negra, pobre e descendente de quilombolas, a vereadora é uma defensora ferrenha da causa LGBT, dos negros, matrizes africanas e da população carente.

“Em meu primeiro mandato, fui apontada como a 4ª vereadora mais atuante na cidade. É com muito orgulho que consegui aprovar nove projetos, sendo um desses, o primeiro do país  a instituir como lei o Nome Social de pessoas travestis e transexuais”, exaltou.

O trabalho da vereadora é reconhecido, inclusive, pelo prefeito de Uberlândia, Odelmo Leão (Progressistas – MG). “Pâmela Volp defende causas importantes e luta pela garantia da cidadania não apenas dos LGBTs, mas também das mulheres, negros e crianças, por exemplo”, lembra.  

O prefeito acredita que a política deve ser facilitadora e trabalhar sempre pelo povo por sua diversidade. “E é justamente por entender que ela só cumpre seu papel quando promove a inclusão, a conscientização e o respeito, que apoio a pluralidade e a presença de representantes dos mais diversos segmentos para dar voz à comunidade”, acrescentou.

Ainda em Minas Gerais, dessa vez a 230 km da capital mineira, Brenda Santunioni trabalha em prol de diversas bandeiras. Eleita com 968 votos, Brenda é a primeira mulher transexual a ser vereadora na cidade de Viçosa (MG).  Em um ano e meio de mandato, a mineira preside a Comissão de Direitos Humanos, Segurança, Prevenção e Cidadania. 

  Atenta às necessidades gerais da  população, a vereadora é responsável  e/ou corresponsável pela criação da Política de Proteção aos Animais (Lei Municipal nº 2.689/2018), da lei que permite o desembarque de mulheres usuárias de transporte coletivo fora das paradas de ônibus após as 22h, e está desenvolvendo a criação de um posto de doação de sangue no município, em parceria com a Fundação Hemominas e Secretaria Municipal de Saúde.

“O contato direto com a população é essencial para um bom trabalho na Câmara de Vereadores. Por isso, mantenho um canal aberto para receber cidadãos em meu gabinete e faço visitas frequentes nos bairros para ouvir as demandas populares em primeira mão, além de estar sempre atenta à repercussão das ações do Legislativo nas redes sociais”, contou a vereadora.

Preconceito

Nem transexual, nem travesti. É Shirley! É assim que a vereadora de Pilar (PB), Shirley Costa, se identifica. Com uma campanha de poucos recursos, a vereadora precisou enfrentar dois preconceitos para se eleger em 2012 e se reeleger em 2016: o da religião e da homossexualidade.

Shirley, que é mãe de santo, lembra que a campanha foi difícil por morar numa cidade com muitos intolerantes religiosos. “Algumas pessoas me olhavam de cara feia. Infelizmente, o preconceito com o Candomblé existe e a homossexualidade ainda é um tabu em nosso país”, lamentou. Batendo de porta em porta, aos poucos a vereadora conseguiu conquistar os 345 votos que recebeu nas últimas eleições. “Meu trabalho na área da saúde falou mais alto”, comemorou.  Durante muitos anos a paraibana trabalhou no atendimento de um hospital municipal e ficou reconhecida por tratar com humanidade todos os enfermos e familiares.

“Muitos médicos não olham nem na cara dos pacientes. É um descaso total. Eu, como atendente, comecei a trata-los com carinho e atenção e passei a ouvir pedidos para que eu me candidatasse”, conta ela. Diante do misto de carinho e intolerância, Shirley pede apenas que seja vista como uma pessoa normal que é. “Quero que vejam com normalidade a minha maquiagem e minhas roupas femininas. Estou muito tranquila com quem eu sou”, pediu.  

Visibilidade

Para o Presidente Nacional do Afro Progressistas, Bruno Teté, o movimento tem trabalhado pela legitimidade através da disputa de mandato eletivo dos negros e negras, sacerdotes de matrizes africanas e mulheres e homens trans. “Nossas vereadoras mostram que o Progressistas é um partido que respeita a diversidade e quer o diálogo por um país melhor”, destacou.

Bruno ressalta que o apoio da deputada federal Iracema Portella (Progressistas – PI), madrinha do Afro Progressistas, é fundamental para dar força e visibilidade ao movimento. “O resultado desse belo trabalho é a eleição de três das seis vereadoras transexuais. Nossa meta é ambiciosa agora. Em 2018, queremos eleger a 1° mulher trans ou travesti para o parlamento da história do Brasil”, concluiu.

 

 

 

 

Fonte: Revista Gestão Progressista